O diagnóstico feito por Luís de Sousa, Investigador do Instituto de Ciências Sociais e membro fundador da Transparência e Integridade, aquando da elaboração do primeiro relatório do Sistema Nacional de Integridade entre 2011 e 2012, mantém-se infelizmente atual.

Os resultados deste ano do Corruption Perceptions Index voltam a colocar Portugal abaixo da média da EU, mas igualmente relevante é a circunstância de não se verificar praticamente nenhuma evolução desde 2012.

Apesar dos avanços registados nos últimos anos, com o aumento do número de processos de corrupção investigados e em tribunal, as perceções sobre a extensão do fenómeno mantêm-se constantes, o que significa que continua a faltar uma estratégia consistente de combate à corrupção, nas suas múltiplas dimensões.

Os últimos dados do Eurobarómetro especial sobre Corrupção (Outubro 2017) são igualmente clarificadores: 92% dos portugueses acreditam que a corrupção é um problema comum no país, 54% afirma que o nível de corrupção aumentou, e 42% respondem que a corrupção afeta diretamente a sua vida diária.

Aproximadamente 50% dos inquiridos identifica a existência de corrupção nas instituições da administração pública central e local, destacando como agentes privilegiados da corrupção os partidos políticos e seus dirigentes (70%), Bancos e instituições financeiras (60%), e a generalidade dos servidores públicos (40% a 50%).

O setor privado, por seu lado, também se mostra altamente contaminado pela corrupção. 58% dos empresários inquiridos para o Eurobarómetro responderam que a corrupção é um obstáculo à prossecução dos seus negócios, entendendo o favorecimento de familiares e amigos de membros de instituições públicas como uma prática generalizada (59%).

Mais significativo, no entanto, é o impacto da corrupção na contratação pública, com 72% dos inquiridos a considerar que não ganharam contratos por esse motivo.

A corrupção mina a confiança na democracia, nos governos, e nas instituições públicas, e tem um impacto expressivo nas questões do desenvolvimento. Reconhecendo os seus efeitos, a Agenda 2030 das Nações Unidas fixou o combate à corrupção como um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, exortando os Estados, organizações da sociedade civil e empresas a trabalhar para reduzir substancialmente a corrupção e o suborno em todas as suas formas.

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One thought on “A corrupção ainda é uma das maiores fragilidades da democracia portuguesa

  • Março 7, 2018 at 12:27 am
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    Sendo uma prática relativamente generalizada, o fenómeno da corrupção encontra nas várias esferas da vida humana diferentes graus e práticas. Por vezes, a sociedade considera “tolerável” a corrupção, instituindo determinadas práticas como aceitáveis, sejam a obtenção de um contrato de trabalho ou de uma vantagem no acesso privilegiado ao crédito bancário, por exemplo. No entanto, embora todos ou quase todos os cidadãos sejam contra os fenómenos da corrupção, de uma forma ou outra condicionam a sua vida em função de práticas que, considerando injustas, acabam por imitar por ausência de critérios de integridade ética. Assim, uma das formas de alterar esta cultura de desonestidade/corrupção passa pela educação das crianças e jovens, incentivando o cultivo da integridade de pensamento e ação e a luta pelo critério de sucesso baseado no esforço pessoal e na meritocracia. Tarefa esta, sempre inacabada, que levará gerações a concretizar.

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