Empresas que encorajam a denúncia de irregularidades podem perceber o que realmente se está a passar dentro das próprias organizações e assim transformar essa perceção em vantagem comercial.

Está provado que os denunciantes querem melhorar as coisas, tanto para as suas empresas como para os seus clientes. No entanto, muitas empresas acabam por ignorar as denúncias internas, ou pior, retaliam contra aqueles que as denunciam. É uma abordagem cada vez mais questionada – porque a realidade também mostra, de forma esmagadora, que as empresas ignoram os denunciantes por sua conta e risco.

Em 2013, Howard Wilkinson, comercial sénior do Danske Bank na Estónia, precisava de informação sobre um cliente registado no Reino Unido. Wilkinson consultou a informação sobre o cliente no registo comercial do Reino Unido, que o tinha listado como inativo. No entanto, sabia que estava a fazer transações no valor de até quase 18 milhões de euros por dia. Descobriu também que a empresa russa partilhava um endereço em Londres com 64 outras empresas, todas elas com contas no Danske Bank, e que estava ligada a centros bancários offshore conhecidos pelo seu sigilo.

Encontrando padrões semelhantes nos registos de outros clientes, Wilkinson avisou os gestores que o banco tinha violado “numerosos requisitos regulamentares”, negociando elevadas somas de dinheiro sem o necessário due diligence. Mas foi ignorado. Impedido pelas leis de sigilo bancário dinamarquesas de reportar a um regulador externo, Wilkinson demitiu-se em 2014, sem saber que tinha descoberto o maior escândalo de branqueamento de capitais da história.

Denunciar a corrupção a uma escala de cortar a respiração

Embora os auditores internos tenham logo levantado preocupações semelhantes, o Danske Bank só encomendou um inquérito independente em 2017, após os meios de comunicação social terem começado a sondar as suas transferências de dinheiro. O inquérito concluiu que quase 210 mil milhões de euros tinham passado pela sucursal da Estónia entre 2007 e 2015, com controlos inadequados de branqueamento de capitais.

Em finais de 2018, os procuradores dinamarqueses acusaram o Danske Bank de insuficientes monitorização nas transações e investigação sobre os beneficiários efetivos das empresas suas clientes. Os executivos foram acusados de violar as leis dinamarquesas contra o branqueamento de capitais e, em fevereiro de 2019, o regulador financeiro da Estónia ordenou ao banco que deixasse o país no prazo de oito meses. Mais tarde, o Danske Bank anunciou a sua retirada da Estónia, Letónia, Lituânia e Rússia.

O valor das ações do Danske Bank caiu para metade em 2018 e, com investigações em curso na Dinamarca, Estónia, França, Alemanha, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos, são esperadas multas no valor de vários milhares de milhões de euros.

Denúncia de irregularidades para a saúde das empresas a longo prazo

O escândalo sublinha a razão pela qual as exigências dos acionistas por programas eficazes de denúncia de irregularidades estão a crescer. As empresas que encorajam e ouvem os denunciantes sinalizam aos investidores e ao público que dão prioridade à gestão do risco, à responsabilidade social e à integridade, apoiando a criação de valor a longo prazo.

Em 2018, académicos analisaram 1,2 milhões de relatórios internos anonimizados por funcionários de empresas públicas americanas. Verificaram que os denunciantes são essenciais para atingir objetivos empresariais, incluindo a rentabilidade. Permitem às empresas abordar a conduta ilícita, antes que a responsabilidade seja acionada, e aceitar sanções mais leves através da denúncia voluntária aos reguladores.

A análise concluiu que, quanto mais funcionários utilizarem as linhas diretas internas de denúncia, menos processos judiciais serão intentados contra as empresas e as multas também são menores. Os denunciantes são claramente um ativo valioso, mas muitas vezes não são tratados como tal.

Quando Courtland Kelley, inspetor de qualidade da General Motors nos Estados Unidos, relatou aos gestores preocupações com a segurança dos produtos, a empresa afastou-o, fazendo com que os inspetores de segurança e qualidade ficassem com medo de falar.

Em 2014, a GM enfrentou a investigação de um defeito imputável a numerosos acidentes e 124 mortes, possivelmente evitáveis, se a empresa tivesse alimentado uma cultura de denúncia de irregularidades. Os funcionários tinham conhecimento do defeito, mas não tomaram qualquer medida.

A GM foi forçada a pagar mais de 1,33 mil milhões de euros em multas e indemnizações. Também pagou mais de 2,67 mil milhões de euros para retirar 30 milhões de veículos do mercado em todo o mundo e sofreu danos incalculáveis nos seus reputação e vendas.

O valor de saber ouvir

Tal como Kelley, Amjad Rihan, antigo parceiro do EY, foi maltratado pela direcão quando criou preocupações reveladas durante uma auditoria de clientes no Dubai em 2013. Rihan descobriu que a Kaloti Jewellery International tinha enviado de Marrocos ouro revestido de prata para evitar restrições à exportação. Tinha também suspeitas de branqueamento de capitais através de 4,63 mil milhões de euros em ouro, possivelmente de países exportadores de minerais de conflito.

Tendo relatado as suas descobertas ao regulador do Dubai, Rihan disse ter sido pressionado no EY para alterá-las. Os chefes do EY alegadamente ajudaram a Kaloti e o regulador a ocultar as denúncias. Temendo pela sua vida, Rihan fugiu para o Reino Unido e demitiu-se.

Incapaz de encontrar trabalho no setor, ele processou o EY por danos à sua reputação. Em abril de 2020, o Tribunal Superior de Londres declarou que o EY tinha violado o código de ética dos contabilistas ao lidar com a Kaloti e violado o seu dever para com Rihan. Condenou o EY a pagar-lhe uma indemnização de 9,6 milhões de euros.

Embora o EY pretenda apresentar recurso da decisão, o julgamento ameaça a marca da empresa e envia uma mensagem clara de que os denunciantes corporativos podem desafiar com sucesso a conduta antiética no exterior quando uma empresa lida inadequadamente com ela internamente.

Tirar partido de uma perceção privilegiada

Mais fraudes são detetadas devido a denúncias do que qualquer outro método, afirma a Associação de Examinadores de Fraudes Certificados. Mas é muitas vezes necessária uma mudança cultural antes de serem consideradas um bem comercial.

Muitas pessoas interrogam-se onde estavam os denunciantes no escândalo das emissões da Volkswagen de 2015. A sua ausência num esquema tão generalizado realça o seu papel crucial, para empregadores e sociedade, e a necessidade de encorajá-los e protege-los. Mostra também a importância de uma cultura empresarial que assegure que todos compreendam a sua responsabilidade de denunciar as más práticas e saibam como fazê-lo.

Empresas como o Danske Bank, General Motors e EY prestam um melhor serviço os seus clientes, e a si próprios, se ouvirem os empregados preocupados em denunciar irregularidades dentro das próprias organizações. Para o fazerem eficazmente, têm de fornecer mecanismos de denúncia com quatro componentes essenciais: encorajamento ativo para falar; canais de denúncia acessíveis e confidenciais; sistemas de resposta eficazes; e proteção robusta dos denunciantes contra represálias.

Embora nem todos os relatórios de denúncia indiquem práticas incorretas, oferecem uma visão interna atempada do que realmente se passa, para que as empresas possam abordar os problemas muito antes de se tornarem escândalos.

Este texto é uma tradução livre do artigo original da Transparency International “Blowing the whistle for corporate success

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