Comunicado sobre a política Anticorrupção do Governo
Lisboa, 11 de fevereiro de 2026 — Na sequência do comunicado divulgado pelo Governo a propósito do Índice de Perceção da Corrupção 2025, cumpre proceder a alguns esclarecimentos que se afiguram relevantes para o rigor do debate público nesta matéria.
O Governo sustenta que a atual Agenda Anticorrupção “reflete necessariamente um processo de avaliação do impacto da referida estratégia”, remetendo para o respetivo relatório técnico. Contudo, da leitura integral desse relatório não resulta qualquer evidência de uma avaliação estruturada, metodologicamente identificável, dos resultados da Estratégia Nacional Anticorrupção 2020-2024.
O que o relatório descreve é, essencialmente, um processo de diálogo político e institucional — relevante e desejável numa democracia — envolvendo partidos, entidades públicas e organizações da sociedade civil. Esse exercício de auscultação, ainda que meritório, não se confunde com uma avaliação de impacto. Uma verdadeira avaliação exigiria, entre outros elementos:
- Identificação clara de objetivos e metas quantificáveis da estratégia anterior;
- Indicadores de execução e de resultado;
- Análise comparativa entre metas previstas e resultados alcançados;
- Identificação de constrangimentos, falhas de implementação e boas práticas;
- Conclusões técnicas suscetíveis de fundamentar opções políticas futuras.
Nada disso é explicitado no relatório citado pelo Governo como fundamento da alegada avaliação.
Acresce que o próprio Governo assumiu publicamente o compromisso de preparar e aprovar uma nova Estratégia Nacional Anticorrupção para o período 2025-2028, “após devida avaliação dos resultados da Estratégia 2020-2024”. No entanto, à data de 11 de fevereiro de 2026, não é conhecida qualquer Estratégia Nacional Anticorrupção para o período 2025-2028, nem foi tornado público o início de um processo formal de avaliação ou de consulta destinado à sua elaboração.
A ausência dessa nova estratégia — já em pleno período que deveria abranger — levanta dúvidas quanto ao cumprimento dos compromissos assumidos e quanto à coerência entre o discurso político e a ação governativa.
O combate à corrupção exige rigor, transparência e coerência estratégica ao longo do tempo. Exige igualmente precisão conceptual no debate público: um processo de auscultação política, ainda que relevante, não substitui uma avaliação técnica de impacto devidamente estruturada; do mesmo modo, a enunciação de intenções não dispensa a formalização de instrumentos estratégicos claros, aprovados e sujeitos a monitorização.
Num contexto em que os indicadores internacionais continuam a colocar desafios à perceção da integridade pública em Portugal, é essencial que o Governo:
- Torne pública a avaliação detalhada da Estratégia 2020-2024 que alega ter realizado;
- Esclareça o calendário para a aprovação da Estratégia Nacional Anticorrupção 2025-2028;
- Garanta um processo transparente e participado na definição das futuras medidas;
- Assuma compromissos concretos, mensuráveis e sujeitos a monitorização independente.
A credibilidade das políticas públicas de prevenção e combate à corrupção consolida-se através de planeamento estruturado, execução consistente e mecanismos claros de monitorização e prestação de contas.
Num domínio tão sensível para a qualidade da nossa democracia, importa assegurar que os compromissos assumidos se traduzem em instrumentos concretos, atempadamente definidos e publicamente escrutináveis.
