A quase totalidade dos portugueses considera viver num país dominado pela corrupção
94% dizem que a corrupção é generalizada em Portugal, 23 pontos acima da média europeia, e 81% acreditam que os casos de alta corrupção ficam por punir. Eurobarómetro confirma e agrava o sinal de alerta do pior CPI de sempre.
Lisboa, 6 de agosto de 2026
A Transparência Internacional Portugal manifesta profunda preocupação com os resultados do Eurobarómetro Especial 573 – Atitudes dos Cidadãos em Relação à Corrupção na UE em 2026, divulgados em julho pela Comissão Europeia. 94% dos portugueses consideram que a corrupção é um problema generalizado no país, mais 3 pontos do que há um ano e 23
pontos acima da média da União Europeia (71%). Apenas 2% consideram a corrupção rara. Portugal mantém-se, assim, entre os países da União onde a perceção de corrupção é mais elevada.
A desconfiança estende-se a todo o aparelho público: 90% dos portugueses concordam que existe corrupção nas instituições públicas nacionais (média europeia: 76%) e 89% nas instituições locais e regionais (74%). Em todas as quinze instituições e setores avaliados, a perceção de suborno e de abuso de poder em Portugal está acima da média europeia. Os partidos políticos lideram a lista (67%) e são a única instituição em que a perceção se agravou face a 2025, seguidos dos políticos nacionais, regionais e locais (60%). O contraste com a média europeia é particularmente expressivo nos bancos e instituições financeiras (43% contra 22%), na administração fiscal (38% contra 18%) e na segurança social (35% contra 15%).
O dado mais grave é o da impunidade percebida. 81% dos portugueses consideram que os casos de alta corrupção não são suficientemente processados, uma subida de 7 pontos num só ano e 12 pontos acima da média europeia. Coerentemente, a razão mais invocada em Portugal para não denunciar a corrupção é a convicção de que “a denúncia seria inútil porque os responsáveis não serão punidos” (44%, contra 29% na média europeia), enquanto 29% afirmam que “não vale a pena o esforço” e 21% não sabem sequer onde denunciar, ambos em subida.
Para os portugueses, a corrupção não é uma abstração: 59% sentem-se pessoalmente afetados pela corrupção na sua vida diária, praticamente o dobro da média europeia (30%), valor que atinge 75% entre os 25 e os 39 anos. Na economia, 83% consideram que o favoritismo e a corrupção prejudicam a concorrência empresarial (média europeia: 67%) e 68% afirmam que a única forma de ter sucesso nos negócios é possuir ligações políticas (54% na União Europeia).
A estes níveis de desconfiança soma-se um sinal de normalização social que a Transparência Internacional Portugal considera particularmente preocupante: num só ano, a percentagem de portugueses que consideram a corrupção tolerável subiu de 11% para 18%, e a dos que a consideram inaceitável desceu de 88% para 81%. Quando a impunidade se instala na perceção coletiva, cresce a tolerância à corrupção.
Estes resultados confirmam que a trajetória de Portugal no Índice de Perceção da Corrupção 2025 – 56 pontos, a pior pontuação de sempre, com descida de três posições para o 46.º lugar do ranking global – não constitui um fenómeno isolado, mas o reflexo de uma perceção pública consistente quanto à incapacidade de prevenir, detetar e sancionar a corrupção. A sucessão de casos de grande impacto mediático envolvendo titulares de cargos públicos, independentemente do respetivo desfecho judicial, contribuiu para um contexto de erosão reputacional que afeta a confiança dos cidadãos nas instituições e no regular funcionamento das instituições democráticas.
«Quando 94% dos cidadãos dizem viver num país onde a corrupção é generalizada e 81% acreditam que os poderosos ficam impunes, não estamos perante um problema de imagem: estamos perante um défice democrático. O país não precisa de mais diagnósticos, precisa de reformas e de instituições com meios e independência para as aplicar», afirma José Fontão, Presidente da Transparência Internacional Portugal.
A TI reitera, por isso, a urgência de aprovar e implementar uma nova Estratégia Nacional Anticorrupção, reforçar os mecanismos de prevenção da corrupção na Administração Pública, cumprir integralmente a regulação da representação de interesses, fortalecer os regimes de conflitos de interesses e incompatibilidades, proteger eficazmente os denunciantes e dotar as entidades competentes dos recursos e da independência necessários ao exercício das suas funções. Os Partidos politicos representados na Assembleia da República, como a única instituição em que a perceção de corrupção se agravou face a 2025, têm especial responsabilidade em agir, quer quanto aos seus procedimentos internos, quer no que diz respeito a novas e decisivas iniciativas legislativas.
A confiança dos cidadãos é um dos principais ativos de qualquer democracia. Os resultados agora conhecidos demonstram que Portugal enfrenta um sério défice de confiança e reforçam a urgência de colocar a integridade, a transparência e a prestação de contas no centro da ação pública. Só com reformas consistentes, e com a sua efetiva implementação, será possível inverter a tendência evidenciada pelo CPI 2025 e agora confirmada pelo Eurobarómetro.
NOTAS AOS EDITORES
O Eurobarómetro Especial 573 foi realizado entre 5 de fevereiro e 1 de março de 2026, com 26.494 entrevistas na UE27, das quais 1.032 em Portugal (5 a 25 de fevereiro), e publicado em julho de 2026; as variações indicadas comparam com a vaga de janeiro/fevereiro de 2025.
A perceção contrasta com a experiência direta: apenas 1% dos portugueses foi vítima ou testemunha de um caso de corrupção nos últimos 12 meses (média europeia: 5%) e 5% conhecem alguém que tenha subornado ou sido subornado (10% na UE). A desconfiança dos portugueses incide, assim, sobretudo sobre a alta corrupção e o funcionamento das instituições, e não sobre a pequena corrupção do quotidiano.
Ficha técnica e resultados: https://europa.eu/eurobarometer/surveys/detail/3693
Índice de Perceção da Corrupção 2025: https://transparencia.pt/indice-de-percecao-da-corrupcao-2025/
Contacto para a comunicação social
Transparência Internacional Portugal
Isabel Alves| Jornalista
[email protected]
Filipa Ambrósio | Diretora Executiva ADVOCATUS
[email protected]
Ana Henriques | Jornalista
[email protected]
João Paulo Godinho | Redator
[email protected]
Rafael | Jornalista
[email protected]
